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O Blog do Samy busca oferecer ao leitor um espaço descontraído e informal onde os conceitos de economia sejam desmitificados. Nele, há informações úteis sobre finanças pessoais, simuladores on-line interativos de cálculos e ainda uma seção sobre os principais acontecimentos da economia.

11/09/2012

Mudança de endereço

Caros leitores,

O Blog do Samy passou por uma reformulação, e a partir de agora poderá ser acessado em um novo endereço:

http://carodinheiro.blogfolha.uol.com.br/

Continuarmos com o mesmo conteúdo e no mesmo grupo de notícias: UOL - Folha de São Paulo.

Espero revê-los em breve.

Por Samy Dana às 10h21

06/09/2012

Prazer, dinheiro e renúncia: não existe escolha sem dor

Em certa oportunidade, ao sermos convidados para participar de um evento, respondemos que não poderíamos ir por falta de tempo. Nosso interlocutor nos olhou fixamente e disse: tempo vocês têm, o que não têm é a prioridade para este evento, afinal, todos nós temos 24 horas por dia!

Tal passagem causou perplexidade. Passamos a reparar na enorme quantidade de escolhas que temos que fazer durante a vida, tendo que priorizar algo em detrimento de outra coisa. As escolhas são incontáveis, por exemplo: as amizades, exercícios físicos, o emprego, uma universidade específica, o casamento, a compra ou aluguel, entre outras.

Cultivar uma amizade, por exemplo, requer tempo. Logo, escolher um amigo significa abrir mão de tempo que poderia ficar com outras pessoas. Há o dilema de optar por uma boa tarde numa churrascaria ou uma tarde na academia de ginástica, ou ainda uma bela “siesta” ao melhor estilo andaluz, ouvindo flamenco e imaginando o tabladot. Ao pensar em casar, a pessoa opta, na maioria dos casos, entre segurança do relacionamento ou ao espírito de aventura da vida de solteiro. Em síntese, em tudo na vida há escolhas e renúncias.

No entanto, nosso cérebro está sempre melhor treinado para pensar nos benefícios do que na renúncia. Dificilmente ponderamos o peso das renúncias em nossas escolhas. Por se tratar de um texto ligado às finanças, nada melhor do que usar um exemplo da área.

Conhecedores como ninguém da alma humana, os publicitários sempre lançam mão de anúncios que estimulam a urgência das coisas, levando-nos a priorizar um produto ou serviço como se nossos próximos dias dependessem dele. “Tenho que ter este mais novo televisor!” diria um consumidor, logo após uma campanha de sucesso Diante de tão fortes apelos, deixamos de lado coisas importantes e somos levados para o consumo desenfreado. Como dissemos, na vida, escolher uma coisa significa, sempre, renunciar outra coisa.

Suponhamos que você esteja comprando um televisor à vista, por R$ 1.500,00. Neste caso, você está renunciando a esta quantia em troca da satisfação de ter o televisor. Você por acaso já parou para se indagar se está fazendo a coisa certa? Se não comprasse o televisor, o que poderia fazer com o dinheiro? Para alguns, a compra pode significar a renúncia de uma viagem, para outros, fanáticos por moda, pode significar algumas peças no vestiários, os mais precavidos, por exemplo, podem entender isso como um aumento da renda após a aposentadoria.

Quando se compra a prazo, além dessa renúncia, tem os juros. Se alguém compra um televisor que custa à vista R$ 1.500,00, e parcela o valor em 10 vezes de, digamos,  R$170,00, significa que a renuncia não é de apenas de R$1.500,00, pois existe, neste caso, mais R$200,00 de juros. De forma geral, os juros são o aluguel que se paga (ou recebe) pelo dinheiro. Os duzentos reais são, portanto, o que se paga para antecipar o consumo de R$1.500,00.

Criou-se uma lógica de que quanto mais eu consumo hoje, mais feliz eu fico. Esta premissa é ótima para os marqueteiros, mas será que vale também para todas as pessoas? Existe um ganho em postergar o consumo, ou seja, postergar uma satisfação? De certa forma, em se tratando se uma sociedade de mercado, o principal incentivo são os juros. Quem posterga sua satisfação recebe um “plus” daquele que quer antecipar sua satisfação. No caso da compra do televisor, se a pessoa fosse menos afoita poderia consumir no futuro R$200,00 a mais... O problema, numa sociedade como a nossa, é convencer a pessoa comum a tratar o seu dinheiro com mais respeito... enquanto isto, o publicitários anuncia: não perca tempo, promoção imperdível!!!!!!

Ja dizia  Antoine de Saint-Exupéry “Determinada flor é, em primeiro lugar, uma renúncia a todas as outras flores. E, no entanto, só com esta condição é bela”.

Lembre-se sempre que ao consumir você renuncia aos juros que poderia receber da poupança;

Quatro dicas importantes para não renunciar em demasia:

1)  Lembre-se sempre que ao consumir você renuncia aos juros que poderia receber da poupança;

2)  Uma decisão de consumo afoita pode fazer com que você renuncie a coisas mais importantes, que lhe poderiam lhe proporcionar uma maior satisfação;

3)  Quando você faz um financiamento para antecipar uma satisfação, você não só renuncia ao dinheiro do bem como também renuncia às satisfações futuras que poderiam se compradas com o valor do juro;

4) Quando você se endivida mais do que pode, você renuncia também a boas noites de sono!

Post em Parceria com com Prof. Marcos Cordeiro Pires que é Doutor em História Econômica pela USP. Professor de Economia Política da Unesp de Marília e co-autor do livro "10x sem juros"

Por Samy Dana às 23h59

28/08/2012

Resenha livro: “Como passar de devedor para investidor - um guia de Finanças pessoais”

 

Segue resenha feita pela jornalista Luana Magalhães.

São Paulo, 28 de agosto de 2012

O ex-aluno da FGV, Fábio Sousa e o professor da Escola de Economia de São Paulo (EESP-FGV), Samy Dana, lançam o livro: “Como passar de devedor para investidor - um guia de Finanças pessoais”. A obra educa os leitores para a administrarem o próprio bolso. Com uma linguagem clara, exemplos e planilhas a educação financeira é detalhada, desde o entendimento da composição dos rendimentos, identificação de gastos principais e pequenos até à diversificação de investimentos.

Segundo os autores, é imprescindível administrar os gastos principais, analisa-los e melhorá-los, pois eles representam mais de 50% dos rendimentos. Como exemplo, o professor Samy cita um almoço de R$20,00 de segunda a sexta que gera nada menos que R$ 5,2 mil por ano.

Pagar contas em dia, guardar os comprovantes de gastos para identificar os “pequenos” gastos faz toda a diferença no orçamento. “Após anos de consultoria sobre finanças, percebemos que o problema mais comum é que as pessoas não sabem com o que gastam o dinheiro que ganham (...) há gastos pequenos que não damos muita importância no dia a dia. Porém, quando somados, representam valores significativos”, ressaltam os autores.

Organizar as finanças também é outro aspecto relevante. Ao longo do livro as planilhas com exemplo de classificação de despesas, com orçamento semanal e mensal podem ajudar como base para a criação de um modelo que se encaixe no perfil do leitor.

A diversificação de investimentos também é tema de aprofundamento. Quais aplicações são mais indicadas para cada perfil? Como se dá o rendimento de capital? Quais riscos de cada investimento?

De forma geral, o livro “Como passar de devedor para investidor - um guia de Finanças pessoais” apresenta os principais elementos para uma vida financeira sadia e próspera, partindo de elementos básicos aos mais complexos, com linguagem clara, envolvente e prática. Para tornar-se um investidor ou um simples administrador consciente do próprio bolso basta começar pelos temas abordados ao longo da obra.

Aproveito o post também para divulgar a matéria feita pelo UOL:

http://economia.uol.com.br/ultimas-noticias/redacao/2012/08/28/livro-ensina-a-cortar-gastos-e-ficar-com-mais-dinheiro-para-investir.jhtm

Maiores detalhes sobre o livro podem ser encontradas no “Como Passar de Devedor para Investidor”, da Editora Cengage.

 

Por Samy Dana às 11h17

20/08/2012

Desaceleração do Mercado Imobiliário

 

Após meses seguidos de intensa valorização, o índice FipeZap (principal termômetro do mercado imobiliário brasileiro) parece finalmente começar a dar sinais de desaceleração. 

Nos últimos três meses a variação mensal ficou próxima de 1%, levando o acumulado em 12 meses para o menor patamar histórico de 19,58%, conforme ilustrado no gráfico abaixo:


No artigo “Bolhas Especulativas no Mercado Imobiliário”, dividimos a demanda por imóveis entre real e especulativa e argumentamos que o estouro de qualquer bolha está associado ao colapso da demanda especulativa, isto é, quando aqueles que compraram para vender depois percebem que os preços atingiram patamares muito elevados e que, por isso, sobrou pouca ou nenhuma margem para valorização.

Mas será que esse desaquecimento do mercado imobiliário já pode ser entendido como o colapso da demanda especulativa? Será que de agora em diante podemos esperar um desaquecimento ainda maior do mercado imobiliário?

Muitos argumentarão que uma variação de 1% sequer pode ser considerada um desaquecimento. Afinal, 1% ainda é superior a rentabilidade mensal da poupança, do CDI e da maioria dos CDBs. Mais que isso, 19,58% nos últimos 12 meses é um retorno que daria inveja a qualquer investidor.

De fato, uma variação mensal de 1% dificilmente poderia ser considerada um desaquecimento para qualquer outro índice, porém há que lembrar que entre setembro de 2010 e junho de 2011 o FipeZap apresentou uma variação média de 2,25% ao mês. 

Concordamos que ainda não temos um desaquecimento acentuado, mas esse 1% pode significar muito mais do que parece à primeira vista se analisarmos três questões: (i) o comportamento dos especuladores; (ii) as estratégias das construtoras e (iii) a construção do índice FipeZap 

(i) A análise do comportamento dos especuladores é fundamental para compreender por que mesmo com o colapso da demanda especulativa nem sempre a queda dos preços ocorre de forma abrupta. 

Existem diferentes estágios para um colapso da bolha que se formou em grande parte do país. Na verdade, as quedas abruptas de preço estão associadas aos momentos de pânico generalizado, mas estes são normalmente precedidos por ajustes graduais. 

Para compreender o mecanismo de ajuste de preços em mercados com bolhas especulativas, suponha que um especulador tenha comprado há um ano atrás um imóvel no valor de R$ 500 mil.

Evidentemente que para ter lucro nessa operação o especulador terá que vender o imóvel a um preço superior ao que pagou, por exemplo, R$ 600 mil. Assim, mesmo sabendo que hoje não há mais consumidores dispostos a pagar este preço (e possivelmente nem mesmo os R$ 500 mil), esse investidor insiste em ofertar o imóvel por R$ 600 mil.

Esse é um fenômeno ligado a economia comportamental. Ninguém gosta de perder dinheiro, sobretudo especuladores, por isso, mesmo quando o mercado sinaliza que não está disposto a pagar o preço desejado, o investidor coloca uma oferta acima, pois atender ao mercado seria muito doloroso, uma vez que, estaria realizando ou conscientizando as suas perdas. 

Por outras palavras, em um primeiro momento o investidor prefere manter um preço alto e irreal a realizar alguma perda, mesmo que com esse preço não consiga vender o imóvel,.

Esta lógica também está presente nos mercados acionários, pois muitas vezes que os preços caem, alguns investidores se recusam vender já psicologicamente estariam realizando perdas

Ademais, especuladores sabem também que diminuir os preços para vender os imóveis poderia despertar o sentimento de pânico que, por sua vez, geraria a uma corrida para vender e uma queda ainda maior dos preços. 

Concluímos então que em um primeiro momento ocorre um desaquecimento do mercado, uma vez que, a demanda não concorda em pagar o preço ofertado.

(ii) As construtoras também passam por essa situação. Imagine o que aconteceria se elas começassem a diminuir os preços anunciados? Isso não só poderia gerar pânico e o estouro da bolha como também deixaria todos os que pagaram preços altos (e muitos ainda nem receberam o imóvel) furiosos. Como lidar com a situação?

Uma forma interessante e viável de manter a crença que imóvel é sempre um bom negócio é deixar o preço no mesmo patamar anterior (ou seja, extremamente caro) e ocasionalmente até aumentar um pouquinho, digamos, 1%. 

Ao fazer isso a construtora sabe que não terá compradores, porém, para contornar essa situação, lança mão de tradicionais técnicas de marketing como o desconto e as promoções convidativas.

Tal comportamento explica em grande parte o momento que atravessa o mercado imobiliário brasileiro com aumentos cada vez menores dos preços e desconto cada vez maiores. 

Infelizmente, não temos dados que nos permitam avaliar quantitativamente a magnitude dos descontos concedidos pelas construtoras. Contudo, há inúmeros relatos a respeito desses descontos na mídia, que por sua vez, estão cada vez mais comuns. 

(iii) Finalmente, há que lembrar ainda que o índice FipeZap é calculado com base nos preços de imóveis anunciados e publicados no Zap Imóveis. Assim, apesar de ser o principal termômetro do mercado imobiliário brasileiro, o índice FipeZap não capta os descontos e promoções das construtoras e, por isso, tende a subestimar a magnitude da desaceleração do mercado imobiliário. 

Os pequenos aumentos de preços aliados aos enormes descontos, podem manter as variações positivas do índice FipeZap, evitando o sentimento de pânico por mais algum tempo. Porém, acreditamos que por detrás da variação mensal do FipeZap existe uma história a ser contada e que é possível, e aliás muito provável, que a demanda especulativa tenha começado a “cair na real”, mas este é apenas um começo de um longo caminho em direção a preços mais razoáveis.

Post com colaboração de Miguel Bandeira que  é graduando em Economia pela EESP, Consultor e Conselheiro da CJE-FGV.

 

Por Samy Dana às 00h52

15/08/2012

Usando o cartão de crédito a seu favor

 

Embora muitas pessoas tenham medo de utilizar o bom e velho cartão de crédito e até o culpem por seus problemas financeiros pessoais, ele pode ser uma ótima ferramenta, se bem utilizado. Seguem algumas dicas importantes para um uso saudável:

1)     Ao pagar com cartão de crédito, guarde sempre o canhoto. Faça um controle de todos os gastos em uma planilha até receber a fatura - Evite surpresas!

2)     Não espere a anuidade do cartão ser renovada automaticamente, procure o banco antecipadamente – muitas vezes esta tarifa pode ser negociada com desconto ou até com isenção, de acordo o perfil do cliente e relacionamento com o banco ou administradora

3)     Não se esqueça, como a maioria dos usuários, de trocar as milhas no cartão por benefícios. Geralmente, esses pontos podem ser convertidos em bilhetes aéreos, diárias de hotéis, aluguéis de carro, jantares, dentre outros.

4)     Caso não tenha desconto à vista nem no cartão de débito, opte pelo pagamento no cartão de crédito, uma vez que você compra agora e paga somente no próximo mês.  Caso seja um consumidor assíduo, um segundo ou terceiro cartão pode permitir a escolha da melhor data de compra.

5)     Gaste no cartão somente o que pode pagar. Nunca deixe uma fatura em aberto, os juros do cartão são os mais altos ( em alguns casos, ultrapassam 300% ao ano).  Caso não tenha dinheiro em conta para cobrir toda fatura, vá a um banco e pegue um empréstimo a uma taxa menor para quitar a dívida no cartão.

Boas compras, mas sempre tenha cautela...

Maiores detalhes deste assunto e outras dicas sobre finanças pessoais podem ser encontradas no  “Como Passar de Devedor para Investidor”, da Editora Cengage 

Post com colaboração   Fabio Sousa que é  MBA de Finanças Corporativas pela Fundação Getúlio Vargas e Sócio-diretor da FTN  (www.ftnconsultoria.com.br)

Por Samy Dana às 09h16

09/08/2012

Demanda irracional, oferta oportunista ou 3 boas razões para se abrir uma funerária

Quando os economistas clássicos desenvolveram a teoria do equilíbrio geral no século XVIII, eles lançaram mão da famosa, e sempre em voga, lei da oferta e da procura. Essa teoria foi baseada em certas premissas para que funcionasse de forma adequada, tais como mercados competitivos, produtos homogêneos e informação gratuita e simétrica.

Mercado competitivo é aquele em que nenhum vendedor ou comprador é suficientemente grande para alterar preços por si só. Produtos homogêneos, conhecidos também como commodities, são aqueles cuja qualidade não muda de um vendedor para outro – um dos exemplos mais recorrentes é o do algodão, uma vez que não existe grande diferença de padronização e qualidade entre fornecedores. Por fim, a informação é considerada gratuita e simétrica quando nenhum dos dados tem custo e todos estão disponíveis. Em outras palavras, vendedores e compradores conhecem todo mercado de forma igual. Se algum vendedor, por exemplo, ousar subir o preço acima dos demais concorrentes, ele não terá compradores.

Finalmente, os economistas clássicos concluem afirmando que o comprador faz sempre o melhor negócio diante suas preferências. Fazer o melhor negócio, no caso, não se resume a comprar o produto do fornecedor mais barato; envolve também a certeza de que a compra vale a pena e que não existe nenhum outro produto no mercado em que o agente preferiria gastar seus recursos. Nesse cenário utópico, não haveria espaço para marketing, e as únicas questões de decisão seriam o preço e as preferências do consumidor.

Inconscientemente, raciocinamos desta forma quase toda vez em que nos deparamos com opções de compra, venda ou troca. Comparamos os custos da compra de um carro com os seus benefícios, como deixar de andar de ônibus, e tomamos decisões fundamentadas e racionais. As poucas compras que fazemos impulsivamente são uma exceção, certo? Nem tanto. Existem alguns setores em que compras irracionais e consumidores desinformados são a regra: setores relacionados a situações em que compradores agem de forma emocional e despremeditada.

O setor funerário ou, de forma geral, de empresas que lidem com a morte, é o caso analisado nesse texto. Estão incluídos aí cemitérios, produtores e vendedores de caixão, funerárias, floriculturas de cemitério, entre outros. Como veremos, existem ao menos três peculiaridades desse mercado que o tornam estranhamente interessante para empreendimentos e curiosos como nós:

1 – Consumidores desinformados

Quanto custa um caixão? A maioria das pessoas não saberia responder a essa pergunta (os autores inclusive). Alguns poucos, que já tiveram a infelicidade de comprar um, saberiam dizer o quanto pagaram por ele, mas provavelmente, ainda assim, não saberiam dizer se o preço que pagaram está abaixo, acima ou próximo da média do mercado – que irá dizer da margem de lucro do produtor. E a razão para tanto é simples: nós não costumamos comprar caixões e, para piorar, diferentemente de uma casa (que também não compramos com frequência), as compras de caixões são normalmente inesperadas, de forma que não estamos preparados para realizá-las quando o momento chega.

Ainda por cima, muitas pessoas podem considerar rudeza perguntar a amigos que já compraram caixões o preço pago por eles, como meio de comparação. O mesmo raciocínio é valido para os demais produtos (jazigo, flores, etc.). Como resultado, essas empresas costumam lidar com consumidores completamente desmunidos de informação. Para agravar, em casos como compra de caixões (ou imóveis), não temos o hábito da negociação. Assim, iremos negociar um produto que nunca ou quase nunca compramos com um vendedor que vive disso.

2 – Agindo contra o tempo

Serviços funerários se tornam requisitados, normalmente, de forma repentina. Consequentemente, nos deparamos com pouco tempo para tomar nossa decisão de compra. E não se resume ao caixão: é preciso arranjar o transporte do corpo, o espaço do velório (caso não seja em casa), comprar o jazigo, as flores, encontrar um padre para a missa, e assim por diante.

Quase todos esses itens e serviços custam e, portanto, é preciso pagá-los no momento. Quem está acostumado com pechincha e negociação sabe que, para se obter bons descontos, deve-se fazer parecer que a compra não é urgente, e tampouco absolutamente necessária. Cemitérios, fortuitamente (para eles), lidam quase que exclusivamente com consumidores que necessitam enormemente de seus serviços, e com urgência.

3 – Emoções à flor da pele

Nas cartilhas educativas entregues por autoescolas, recomenda-se não dirigir em estados emocionais delicados ou extremos. A recomendação não existe simplesmente por medo de motoristas agressivos ou com tendências suicidas: o governo sabe que, à medida que as emoções afloram, elas substituem o comportamento racional do indivíduo.

Infelizmente, não se faz o mesmo tipo de recomendação para consumidores emocionalmente extenuados pela morte de um ente próximo (ou qualquer tipo de alteração). Como resultado, nós realizamos as compras já enumeradas em estados psicológicos muito distantes da calma, ponderação e racionalidade necessárias a uma decisão acertada. Estamos, também, mais suscetíveis a influências como: “ele merece o melhor”. Não é incomum, muito em função desse tipo de marketing, que muitos pensem que quanto maior o gasto com caixão, enterro, flores e etc, maior será a prova de amor pela pessoa que se foi.

Percebe o ponto a que queremos chegar? Se você fosse dono de um cemitério, eis o perfil do seu consumidor médio: completamente desinformado sobre os preços cobrados no mercado, sem experiência em negociação neste produto, desprevenido, precisando muito de seus serviços (e com urgência) e emocionalmente desestabilizado e exaurido (sem disposição, provavelmente, para oferecer grande resistência ao preço pedido). Se não o convencemos ainda sobre as facilidades do setor, considere ainda que a demanda por seus serviços é interminável. Afinal, a única certeza que temos na vida é a inevitabilidade da morte.

Nosso objetivo aqui, além de alertar para os absurdos preços cobrados por caixões, coroas de flores e jazigos (vide apêndice), é mostrar que os modelos baseados em oferta e demanda podem ser falhos, e ainda por cima encobrir falhas de mercado se não considerarmos aspectos psicológicos e informacionais. Basicamente, em mercados de produtos ou serviços ligados a fortes emoções, como casamento, automóveis, imóveis, entre outros, há vendedores preparados para aumentar seus ganhos. Não estou implicando que cemitérios sejam antiéticos ou malignos; sendo empresas, eles existem para gerar lucro e buscam continuamente melhorar seus resultados. Só que, nesse caso, a demanda não é racional. E quando a demanda é irracional, abre-se espaço para uma oferta oportunista.

APÊNDICE

Pensando que um jazigo não é mais que um buraco no chão, e que um caixão é, fundamentalmente, uma caixa de madeira, resolvemos pesquisar os preços que esses produtos poderiam atingir, e nos deparamos com alguns artigos sobre o assunto:

“[...] São Paulo tem 22 cemitérios públicos, mantidos pelo Serviço Funerário Municipal, e outros 18 particulares. O jazigo mais caro está no Cemitério do Morumbi, na Zona Sul. Um espaço na área antiga, que é a mais cara e mais próxima do portão principal, custa R$ 23 mil com três gavetas (cerca de R$ 7 mil por gaveta) e pode ser parcelado em duas vezes. Já na área nova, longe da entrada, o jazigo sai por R$ 11.500, parcelados em dez vezes.” (Fonte: O Diário de São Paulo)

Uma conta simples: um jazigo não possui mais que 5 metros quadrados. O metro quadrado do Cemitério do Morumbi, portanto, varia de 4,6 a 2,3 mil reais, enquanto o preço médio de um imóvel novo no Morumbi (incluindo Vila Andrade) é 3,9 mil reais[1], fora o “condomínio” que se paga anualmente ao cemitério para manutenção da posse do jazigo – cerca de 2 mil reais.

Quanto aos caixões, em São Paulo eles devem ser obrigatoriamente comprados de agências funerárias municipais. Mesmo assim, os preços podem chegar a 8 mil reais. Em Minas Gerais, por outro lado, onde não existe essa lei, as urnas podem chegar a custar 20 mil reais. Uma consulta rápida a um marceneiro competente, de nossa confiança, revelou que os custos de produção de um caixão comum, com um mínimo de acabamento, variam entre 300 e 800 reais, aproximadamente. Considerando que alguma parte da receita – estes caixões custam a partir de mil reais – é absorvida por taxas e outras despesas da funerária, podemos chutar uma margem média de lucro de cerca de 200% para os modelos mais simples, e uns 500% para os mais incrementados.

Post com colaboração de Otávio Oliveira que é graduando em Administração de Empresas pela EAESP e Consultor da CJE-FGV.

[1] Retirado de pesquisa realizada pelo Ibope em 2010. Disponível em <http://exame.abril.com.br/seu-dinheiro/imoveis/infograficos/pesquisa-de-imoveis-do-ibope-2010/>

Por Samy Dana às 00h40

25/07/2012

Entenda porque a inadimplência não pode ser considerada a única vilã dos elevados spreads

Uma das marcas da política econômica deste ano, sem sombra de dúvidas, foi a tentativa de fazer com que os bancos reduzam os spreads bancários[1].

De um lado o governo critica os bancos dizendo que estes são abusivos e dificultam o acesso ao crédito, de outro os bancos se defendem dizendo que as inadimplências recordes no Brasil não possibilitam a redução dessas taxas, como deseja a presidente Dilma.

Para saber se essa justificativa é valida temos que entender o mecanismo de crédito no Brasil.

A grande maioria dos bancos possui modelos estatísticos para avaliar a capacidade de pagamento de um cliente no varejo, conhecidos como escore de crédito. O escore de um cliente nada mais é que uma nota que o banco atribui de acordo com a probabilidade de não pagamento de um empréstimo. Quanto mais alta a nota, maior a chance do cliente não honrar com seu crédito. Em outras palavras, ao realizar uma operação de empréstimo os bancos cobram um “prêmio” pelo risco do devedor não honrar o compromisso. Quanto maior o risco de incumprimento de um empréstimo, maior então deve ser esse prêmio, que nesse caso é representado pela taxa de juros cobrada.

De maneira simples, pode-se supor uma escala de 0 a 10, na qual 10 representa 100% de probabilidade do cliente não pagar e 0 representa 0% de chance desse fato ocorrer.

Pelo que se vê, a grande maioria dos bancos tem uma postura conservadora. Assim, clientes que possuem escore menor ou igual a uma determinada nota, por exemplo 3 (ou seja, possuem até 30% de chance de dar calote), recebem o empréstimo. Já para os que tiveram nota maior que 3 o crédito não é concedido.

O grande problema é que nos bancos, em sua maioria, não há discriminação entre os clientes aprovados. Dessa forma, são cobradas as mesmas taxas do cliente nota 1 e do cliente nota 3.

O ideal seria que o banco concedesse um crédito com uma taxa menor ao cliente nota 1 do que ao cliente nota 3, uma vez que o primeiro possui uma menor probabilidade de não pagar o empréstimo. Isto seria mais justo e reduziria a inadimplência e o spread bancário.

Quando os bancos optam por não diferenciar os clientes, a inadimplência tende a aumentar, pois a taxa de juros cobrada atualmente é uma média das diversas taxas de juros que deveriam ser cobradas de diferentes clientes.

Por exemplo, a taxa de juros que acaba sendo cobrada é de, digamos, 10% ao mês, quando deveria ser de 8% para o cliente com escore de crédito 1 e de 12% para o cliente com escore 3.

Em outras palavras, o perfil do crédito emprestado piora, pois bons pagadores tomam menos crédito, enquanto maus pagadores tomam mais crédito. Isto porque os clientes com escore 1 tomariam mais dinheiro emprestado se a taxa de juros fosse 8%. Analogamente, os clientes com escore 3 tomariam menos dinheiro emprestado se a taxa de empréstimo para eles fosse de 12%. Assim, como o perfil do crédito piora, a inadimplência sobe.

Esse fato é a famosa seleção adversa[2] do mercado de crédito, na qual a taxa fica muito cara para o cliente com risco baixo, restando aos bancos apenas clientes de risco mais alto, o que contribui para o aumento da inadimplência.

Vale destacar que esse tipo de medida de diferenciação já ocorre para pessoa jurídica. Os bancos, por meio de seus comitês de créditos, decidem o quanto vão emprestar e o quanto será o spread de acordo com o perfil de cada empresa.

A consequência disso? A inadimplência e o spread para empresas são inferiores aos das pessoas físicas, como vemos pelos gráficos a seguir.


Alguns podem argumentar que é devido à saúde das mesmas, outros poderiam dizer que o crédito é dado com mais responsabilidade às empresas do que às pessoas físicas.

Se isso já acontece com empresas por que não levar este mecanismo para as pessoas físicas, abrindo espaço para a redução do spread bancário? Não seria mais justo privilegiar aqueles que possuem um histórico de bons pagadores? Até quando os bons pagadores serão penalizados pelos maus por culpa da falta de discernimento dos bancos?

Post em Parceria com Leonardo de Siqueira Lima e Daniel de Lima, graduandos em Economia pela EESP.



[1] Spread bancário, em termos simplificados, é a diferença entre a taxa de juros cobrada aos tomadores de crédito e a taxa de juros paga aos depositantes pelos bancos.

[2] Seleção adversa: conceito amplamente usado em economia que ocorre no mercado de crédito quando o credor não é capaz de distinguir entre projetos com diferentes níveis de risco no momento do contrato de empréstimo.

Por Samy Dana às 00h03

22/07/2012

Aprender chinês vale a pena?

 

Algumas pessoas, sobretudo universitários, encaram sua formação como investimento e armam uma estratégia, quase que militar, para pautar sua vida profissional.

A fim de obter melhores posições no mercado de trabalho, essas pessoas procuram antecipar alguns acontecimentos visando assim desenvolver habilidades que serão bastante demandadas no futuro. 

Quem nunca ouviu falar, num passado remoto, daqueles que queriam fazer Processamento de Dados? Hoje muitos enxergam carreiras de engenharia do petróleo como áreas de carreiras promissoras.

Diante disso, invariavelmente, alunos e executivos argumentam que, devido à China ser uma forte candidata a se tornar a maior potência mundial do futuro, aprender mandarim é uma das melhores aquisições que um executivo pode fazer. 

Nas grandes capitais brasileiras, sobretudo São Paulo, há uma oferta enorme de cursos de mandarim e a procura cresce a cada dia.

Afinal, aprender mandarim vale a pena do ponto de vista profissional?

No nosso entendimento, essa estratégia militar de antecipar o futuro e direcionar o aprendizado ao mandarim pode ser bastante discutível e provavelmente vai ter uma utilidade profissional próxima de zero.

Vamos aos fatos:

1- As pessoas tendem a superestimar o crescimento da China, muitos acreditam que ele se perpetuará. Vale lembrar que assim como as empresas, os países conseguem crescer a taxas altas por um tempo, mas não sempre.

Se o Brasil, por exemplo, crescesse as taxas que cresceu no período do Milagre econômico, hoje seria a maior economia do mundo, e com uma grande diferença para o segundo colocado.

Investimentos e capacidade de crescimento têm limites. Grande parte do crescimento chinês é devido ao seu investimento de 40% do PIB (no Brasil essa taxa gira em torno de 20%). A questão é saber se a China vai conseguir manter esse crescimento quando o seu investimento reduzir, dado que a China apresenta um mercado interno fraco evidenciado pelo seu pequeno PIB per capita. 

Como exemplo, pode-se citar que, com a crise europeia, a China já vem apresentando taxas menores de crescimento em virtude da redução da demanda mundial causando impacto diretos na demanda por seus produtos.

2- As pessoas que tendem a superestimar a economia chinesa também tendem a subestimar o poder dos Estados Unidos. Não subestime os EUA, eles já provaram em 1929, e recentemente em 2008 a força do seu país e a robustez de sua economia. Ou seja, acreditar que a China vai ser a maior potência mundial e os EUA vão ser colocado em segundo plano, o que quer dizer que o inglês deixaria de ser a língua mais importante do mundo, é subestimar os americanos.

3- Não é a primeira vez que a China é vista com potencial para se tornar uma das maiores economias do mundo. Eles já esteviram na vanguarda do mundo e nunca se consolidou como poder supremo. Estamos esquecendo que , no século X, os chineses descobriram a pólvora demonstrando o seu poder. Mil anos depois, este país que, embora seja a segunda maior economia do mundo, ainda apresenta elevados índices de pobreza.

4- Um idioma não é falado apenas porque a nação é a mais rica de todas, mas também por diversos outros fatores. Por exemplo, a produção de conhecimento que um país gera é um fator determinante. Os EUA, sem sombra de dúvida, conta com as melhores universidades do mundo, capturam os melhores pesquisadores de todas as partes e, sobretudo, produzem a maior quantidade de artigos científicos e geração de conhecimento. Além disso, todos artigos e pesquisas são feitos em inglês, inclusive aqueles realizados fora dos EUA.

5- Por último, mas não menos importante, é o número de países que falam o idioma. Isso vale quando falamos de comércio e transações internacionais, enquanto o mandarim é a língua oficial da China e outros cinco países, o inglês é falado em 54 países. Mesmo na China, há inúmeras regiões em que o mandarim não é o primeiro idioma, há o cantonês, sichuanês, hakka, só para citar algumas...

Países que falam Inglês vs Países que falam Mandarim como primeira ou segunda língua


O mapa mundo acima  mostra em vermelho , os países em que a primeira linha é o Chinês e , em azul, aqueles países em que a primeira língua é o Inglês.

O que dissemos aqui nada mais foi que: a China não vai se tornar a principal potência do globo, pelo menos não nos próximos 10 anos. O que se traduz em: aprender mandarim achando que essa vai ser a principal língua mundial pode ser um erro. Caso esses argumentos ainda não tenham convencido de que aprender chinês pode ser um mau investimento, temos que lembrar de uma coisa: os executivos internacionais chineses falam inglês!

Post em Parceria com Leonardo de Siqueira Lima  que é graduando em Economia pela EESP.

 

Por Samy Dana às 21h02

20/07/2012

Programa Intérpretes do Brasil

 

Gostaria de compartilhar uma entrevista que fiz para o programa "Interpretes do Brasil" , o PDF com a transcrição e o audio estão disponíveis no link abaixo:

http://www.luzio.com.br/novos-interpretes.php?id=1ce872713a0b32812d4e3b88c23f3403&utm_source=All+Contacts&utm_campaign=5e249d006f-2012_07_19_Samy_Dana7_19_2012&utm_medium=email

Espero que gostem!

S

 

Por Samy Dana às 12h18

17/07/2012

Bolsa perde feio da renda fixa: uma inconveniente verdade para muitos

 

Ou O coração tem suas razões, que a própria razão desconhece.

Quase a totalidade dos meus colegas financistas, autores de livros de investimentos e consultores financeiros indicam a bolsa como um ótimo investimento de longo prazo quando comparado à renda fixa de risco baixo (leiam-se CDB[1] de grandes bancos ou tesouro direto).

A ideia que está por trás dessa indicação é bem simples: como a bolsa possui um risco muito maior que os investimentos de renda fixa, os especialistas alegam que seu retorno de longo prazo deve ser maior.

O argumento de longo prazo existe justamente por conta do risco, os apóstolos do investimento em bolsa apregoam que, em um horizonte curto de tempo, a bolsa pode variar muito, no entanto, no longo prazo, esse risco será diluído e o maior retorno esperado virá à tona deixando os investidores mais conservadores morrendo de inveja.

Os autores são bastante criativos em seus aconselhamentos, lançam inúmeras regras, a grande maioria de ordem mística e de origem digna de investigação ufológica.  Uma das mais difundidas é o investidor deve subtrair de 100 a sua idade para encontrar o percentual ideal de investimento em bolsa, além de charmosa, essa proporção mágica (e quase áurea) possui um grande apelo de marketing.

Independentemente das inventivas fórmulas, o investimento na bolsa no longo prazo faz sentido do ponto de vista teórico, no entanto, todavia, entretanto, contudo, não obstante, NÃO se pode esquecer que as leis econômicas nem sempre funcionam na prática, ainda mais, em terras brasileiras com sol tropical e com taxas de juros entre as maiores do mundo.

O exercício a seguir mostra uma inconveniente verdade: a bolsa foi um péssimo investimento no Brasil quando comparada a Renda Fixa, sobretudo, no longo prazo.

Nossa base de dados contempla os 18 anos de existência do real, ou seja, do início de julho de 1994 até o final de junho de 2012, dados das bolsas de São Paulo e dados de renda fixa (usamos o CDI). A partir daí, simulamos todas as aplicações possíveis para horizontes de investimentos em bolsa e em renda fixa com horizontes que vão de 1 a 17 anos.

Para ilustrar, suponha a janela de investimento de dez anos. Por exemplo, de 1º de julho de 1994 a 31 de junho de 2004, de 2 de julho de 1994 a 1º de julho de 2004, e assim por diante, sempre, nessa caso, deixando o dinheiro aplicado por de 10 anos totalizando 1995 simulações. Para esse horizonte de investimento, dentro da base dos 18 anos do plano real, há, nada menos, que 1995 simulações diferentes.

Com os dados destas simulações, foram calculados os retornos obtidos pelos investidores e verificamos quantas vezes a bolsa rendeu mais que a renda fixa.

É interessante notar que a bolsa deveria ganhar na grande maioria das vezes, caso fosse verdade o que a grande maioria dos financistas pregam. No entanto, nossa inconveniente verdade mostra que isso não aconteceu, pelo contrário, a bolsa perde na grande maioria dos horizontes.

Pela figura é possível perceber que, no horizonte de 10 anos, que contou com 1995 simulações, a bolsa ganhou apenas 45% das vezes, perdendo cada vez mais  à medida que os prazos aumentaram (chegando a ganhar míseras 14,98% das vezes nos investimentos de 17 anos).

É curioso notar que a bolsa ganhou apenas em prazos, investimentos feito por 1 ano (52,52% com 4263 simulações)  e investimentos de 2 anos (52,71% com 4011 simulações ), o que vai contra o argumento dos nossos colegas de que no longo prazo a bolsa é um ótimo investimento.

Defensores (alguns muito apaixonados) do mercado de ações podem argumentar que essa magra margem de vitória, para horizontes de 1 e 2 anos, indica que a Bolsa é um bom investimento. Mas, se considerarmos que a Bolsa é muito mais arriscada que a renda fixa, essa margem deveria muito maior para compensar o risco! Portanto, mesmo sendo menos arriscado, a renda fixa apresentou um excelente desempenho contra seu oponente em todas as janelas possíveis que totalizou mais de 38 mil simulações.

Ninguém pode garantir o futuro, mas o fato é que, no Brasil a bolsa foi um péssimo investimento, não conseguindo bater nem a renda fixa de risco mínimo – uma vergonha!

O investimento em bolsa ainda está muito mais ligado a um fetiche do que a realidade histórica no Brasil, muitos dos investidores em bolsa incorporam tanto os investidores de filmes que usam o estereótipo de gel com cabelo para trás, celulares modernos e ternos de cinco dígitos – a crença da bolsa está mais para um romance (com final triste) do que para a inconveniente verdade que o histórico mostra.

O matemático Blaise Pascal fez grandes contribuições para teoria da probabilidade e geometria, no entanto, sua frase mais conhecida: "O coração tem suas razões, que a própria razão desconhece"  que faz parte de seu tratado de sobre espiritualidade intitulada Pensées (Pensamentos) por ser empregada nesse caso.

Acredito que Pascal colaborou, mesmo sem saber, para explicar as inúmeras indicações em bolsa feitas por grande parte dos financistas no Brasil.



[1] Certificado de Depósito Bancário: títulos emitidos pelos bancos e vendidos ao público como forma de captação de recursos, usualmente atrelados ao CDI.

CDI: média de taxas que os bancos emprestam dinheiro entre si.

Por Samy Dana às 21h20

06/07/2012

A efetividade das medidas de combate à crise global

ou Faça como um velho marinheiro, que durante o nevoeiro leva o barco devagar... 

É indiscutível que a crise internacional  de 2008 tem provocado efeitos negativos em todo o mundo. De um lado, a longa estagnação dos Estados Unidos, que ainda não recuperou os níveis de atividade e de emprego de antes da quebra do Banco Lehman Brothers. De outro, a crise da dívida europeia que cria incerteza e leva à contração da economia, a um desemprego massivo e também a uma forte contração no ritmo de crescimento do comércio internacional.

Para piorar o cenário, ainda não sabemos se a crise passou ou não, há incertezas enormes sobre o futuro do euro e países como Grécia e Espanha pagam um preço por gastos excessivos que fizeram no passado.

Mesmo longe do epicentro da crise, a economia brasileira vem apresentando sinais de que está sendo afetada. Como um exportador histórico de matéria prima e commodites, os preços e o volume exportados dão sinal de alerta. Para agravar a situação, parceiros comerciais importantes, como a China, também estão desacelerando suas economias. Esse ambiente, faz com que  empresários nacionais estejam pessimistas quanto ao futuro da crise internacional e sua duração e retardam seus investimentos.

O governo brasileiro, desde agosto de 2011, vem anunciando uma série de medidas com a finalidade de amenizar os efeitos da crise na economia local. Em princípio,  a sinalização de otimismo dada pelo governo  com objetivo de estimular o consumo e a indústria é válida para combater a tendência de recessão mundial. Não se pode esquecer que em 2009, tais medidas mostraram-se eficazes para evitar uma catástrofe nos níveis de emprego e renda.

No entanto, é importante refletir sobre a mais nova rodada de estímulos ao consumo. Cabe perguntar, até que ponto essas medidas adotadas continuamente podem surtir o efeito desejado? Haveria uma efetividade decrescente relacionada à adoção sistemática de um mesmo remédio? Será que a economia cria anticorpos e não responde depois de um tempo? É mesmo possível adotar uma política anticíclica frente a desafios tão grandes em nível mundial?

Diante destas questões, acreditamos que o foco das medidas de incentivo deva sair do nível do consumo (demanda) para o investimento (oferta). Por mais deplorável que seja o desemprego em algum setor da indústria de bens de consumo, os esforços seriam mais efetivos, no médio e longo prazos, se os recursos públicos e privados fossem direcionados para a superação de diversos gargalos produtivos, como o setor portuário, estradas, geração de energia, infraestrutura urbana nas regiões metropolitanas e, fundamentalmente, no estímulo ao desenvolvimento de novas tecnologias limpas.

Além disso, não se pode ignorar que os agentes já responderam a estas medidas  de consumo resultando inclusive em um grande comprometimento da renda por parte das família , que pode ser exemplificado pelo recorde da inadimplência.

Certamente, o estimulo ao consumo tem o limite e, quando ultrapassado, pode comprometer a saúde da economia. De forma análoga, podemos pensar que uma economia recessiva pode ser vista com uma pessoa com gripe. Apesar do remédio ser uma solução, se a pessoa tomar duzentas doses consecutivas, provavelmente as últimas doses perderão seu efeito e gerarão algum mal. Ademais, uma economia que passa por inúmeras crises consecutivas pode ser uma pessoa que se gripa toda semana, é necessário investigar  causa do mal do que apenas tratar as dores.

O ônus político do desemprego é muito grande. Poucos são os governantes que suportam a perda de prestígio por conta da insegurança social que ele provoca. No entanto, outros empregos poderiam ser estimulados em setores que deixariam um ativo importante para a futura rodada de forte crescimento econômico. 

Em tempos turbulentos, vale o ditado de Paulinho da Viola: “faça como o velho marinheiro, que durante o nevoeiro leva o barco devagar”.

Post em Parceria com com Prof. Marcos Cordeiro Pires que é Doutor em História Econômica pela USP. Professor de Economia Política da Unesp de Marília e co-autor do livro "10x sem juros"

Por Samy Dana às 01h11

28/06/2012

Entenda os Prós e Contras do Novo Pacote de Investimentos do Governo

Ontem, 27 de junho, o governo anunciou duas novas medidas seguindo a enxurrada que estamos recebendo nos últimos tempos:

(i) Redução da Taxa de juros de longo prazo (TJLP*) de 6,0% para 5,5%.

(ii) Anúncio de investimentos de 8,43 bilhões de reais em equipamentos – chamado PAC Equipamentos.

O governo luta, com todas as forças, para não amargar mais um ano de baixo crescimento. Ano passado o PIB cresceu apenas 2,7% e a previsão para este ano é de 2,18%, taxa extremamente baixa para um país em pleno desenvolvimento como o Brasil.

Há quem diga que o governo está apelando para todos os meios, para evitar esse baixo crescimento, desde mandingas, simpatias, discursos e principalmente medidas, e olha que medidas não foram poucas.

As medidas adotadas até agora tiveram como principal objetivo aquecer o consumo. Tais medidas não são novidade já que, desde a redução do IPI para combater a crise de 2008, medidas de estímulo ao consumo têm sido recorrentes e têm ajudado a manter a taxa de crescimento do PIB. Porém, é preciso ressaltar que em economia, assim como no mundo dos negócios, o sucesso passado não é garantia de sucesso futuro.

Os estímulos ao consumo foram tão bem recebidos pela população que muitos consumiram mais do que podiam, causando um alto índice de endividamento das famílias brasileiras. Tal índice preocupa até mesmo as autoridades internacionais e, por isso, o Banco Internacional de Liquidação já alertou o Banco Central Brasileiro. Ademais, não podemos ignorar que a recente crise americana e a atual crise europeia foram causadas, sobretudo, por gastos imprudentes tanto do governo quanto da população.

Nesse sentido, as novas medidas são melhores que as anteriores, pois atacam aquele que é o considerado por muitos o maior entrave para o desenvolvimento do Brasil: a falta de infraestrutura.

O Brasil investe apenas 20% do seu PIB (contra, por exemplo, 40% na China) e isso se reflete na incapacidade de manter uma taxa de crescimento estável do PIB, o crescimento brasileiro nas últimas décadas pode ser caracterizado por uma trajetória de “vôo de galinha”: crescemos a taxas consideráveis durante dois ou três anos e logo esse crescimento cai abruptamente.

Além de provocar uma trajetória errática de crescimento do PIB, a falta de investimento em infraestrutura impacta negativamente na qualidade de vida da população através de uma educação precária, estradas e ruas esburacadas, filas nos portos para entregar os produtos, saúde pública em estado de emergência, entre outros.

Para as empresas, a falta de infraestrutura se reflete em custos elevados, que combinados aos altos impostos, são carinhosamente chamados de custo brasil. Isso faz com que seja extremamente caro produzir no Brasil e isso mina a competitividade de nossas indústrias no cenário global.

Assim, podemos afirmar que o governo acertou o objetivo com essas novas medidas. Contudo, é necessário destacar dois pontos negativos a respeito do novo pacote.

Primeiro, é que perto da necessidade brasileira essas medidas são de pequeno calibre e que os resultados não serão imediatos.

Segundo, o governo anunciou que pretende estimular a economia por meio desse novo PAC, com equipamentos comprados de empresas brasileiras. Esse tom protecionista que hoje parece ser a solução para incentivar a economia pode custar caro no longo prazo, uma vez que mantém empresas ineficientes às custas de subsídios, que no limite, são pagos pela população.

O protecionismo pode ser comparado, guardadas as devidas proporções, com um filho mimado que não consegue viver sem a proteção dos pais durante toda a vida.

Obviamente, na economia, bem como na educação, proteger faz parte e incentivos são necessários, mas o excesso pode ser prejudicial.

No curto prazo, ele pode blindar a economia de problemas pontuais como a crise na europeia, mas proteger de forma contínua faz com que o produto dessas indústrias ineficientes saia mais caro que os demais concorrentes internacionais. A conta desse produto mais caro é paga pelo consumidor o que pode fazer com que, no longo prazo, nosso querido custo brasil continue sendo um empecilho para o desenvolvimento.

(*) TJLP é a taxa de juros cobrada nos empréstimos concedidos pelo BNDES.

Post em Parceria com Leonardo Siqueira que é graduando em Economia pela EESP-FGV e Miguel Bandeira é graduando em Economia pela EESP, Consultor e Conselheiro da CJE-FGV.

 

Por Samy Dana às 17h54

20/06/2012

Crise global obriga governo a buscar juro baixo e dólar alto

ou O que houve com a novela econômica no Brasil? Entenda o que mudou nos últimos tempos para a economia brasileira e a enxurrada de medidas.

Os jornalistas econômicos não podem reclamar da falta de assunto para as suas matérias. O governo Dilma tem tomado medida atrás de medida, tornando o acompanhamento dos menos atentos e assíduos às notícias praticamente impossível.

O que vemos é um governo que tem se destacado por uma atuação presente - embora algumas vezes confusa - no cenário econômico do país. Como resultado, podemos destacar três principais medidas:

1. Redução da taxa de juros básica da economia para o menor patamar histórico;

2. Preocupação em manter o dólar caro, em aproximadamente R$/U$D 2,00;

3. Estimulo à indústria nacional, por exemplo, via corte do imposto sobre produtos industrializados (IPI).

Antigamente, na época em que eu era aluno de economia, além de os alunos não terem distrações na sala como computadores, tablets e smartphones, as mudanças ocorriam quando um novo governo assumia ou quando a equipe econômica mudava.

Após a tomada de posse da presidenta Dilma em 2010, muitos afirmaram que esse governo seria a continuação do governo Lula e que as políticas econômicas permaneceriam as mesmas. Hoje, dois anos após a posse da presidenta, vemos que o seu governo não é uma “reprise” do governo anterior. O que explica essas alterações no comportamento da equipe econômica? 

O fato é que o mundo mudou. Desde o governo Lula, mais precisamente de 2004 a 2008, a economia global apresentava três características marcantes: 

1. O mundo crescia a taxas maiores;

2. O preço das commodities não parava de crescer; 

3. O Brasil tinha uma grande capacidade ociosa herdada do governo FHC – vale lembrar que o custo da estabilização implicava a taxas menores de crescimento.


Fonte: Banco Mundial / FMI

Essas taxas de crescimento anual apontam que 2010 foi um ano excelente, digno de comemoração - ledo engano! Acontece que 2009 foi um ano tão ruim, mais tão “pior de ruim” que o crescimento em 2010 aconteceu sobre uma base pequena, ou seja, foi um volta do patamar pré-crise. É o que podemos resumir com a frase “para quem não tem nada, metade é o dobro”.

 

Voltando à nossa argumentação, a economia global aquecida de 2004 a 2008 ajudava o Brasil, que sempre atuou como nação exportadora de matéria prima e produtos básicos - conhecidos no mercado financeiro como commodities.

Podemos pensar a economia brasileira como um fábrica de sorvetes que, por fatores climáticos, presenciou um verão de 4 anos. Como a economia mundial cresce a taxas menores desde a crise de 2008, seguindo nossa analogia, podemos imaginar que o vendedor de sorvete amargou um inverno rigoroso e desde então, as suas vendas despencaram.

O gráfico abaixo deixa claro, como o preço das matérias primas e produtos básicos oscilaram nesse período levando países exportadores como o Brasil a sofrerem com a queda brusca em 2008.

Fonte: Trading Economics

Com um economia mundial crescendo menos e os preços das commodities mais estáveis, o governo insiste em aumentar o investimento por meio de redução da taxa de juros básica da economia (a taxa Selic) e através da redução dos spreads incentivar o consumo. Além disso, vemos as diversas medidas de incentivo e de proteção à indústria nacional na tentativa de aumentar a produtividade.

Ainda que no ano passado a inflação tenha ficado no limite máximo de 6,5% estipulado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), ela ainda assombra muitos brasileiros e jamais podemos ignorar seu poder de ressuscitar. De qualquer forma, a figura abaixo mostra a relação entre Selic e inflação e as sucessivas reduções feitas a partir da segunda metade de 2011.

Fonte: Banco Central

Pode-se dizer que, hoje, a preocupação do governo em manter taxas mais baixas é maior do que manter a inflação dentro da meta, pois como vemos mesmo com a inflação constantemente acima do centro da meta (4,5%), o governo continuou a baixar as taxas de juros, fato jamais visto na era Henrique Meireles. Provavelmente os governantes entendem que o risco de ressuscitação é menor do que na era Lula.

Além da busca por juros menores, o governo também tem mostrado um esforço em manter o real desvalorizado para incentivar o setor exportador, já que quanto mais caro for o dólar menor será o preço dos nossos produtos no exterior. Logo, um câmbio de 2 R$/USD a nossa indústria se torna mais competitiva  do que com um câmbio de 1,70, como estava há alguns meses . 

Pelo gráfico a seguir, fica clara a tendência à apreciação do Real. Essa tendência pode ser explicada por diversos motivos: estabilidade macroeconômica do país, a terceira maior taxa de juros real - o que atrai investimentos externos – e, claro, grandes eventos como Olimpíadas, Copa do Mundo etc.

No entanto, nosso super-herói, defensor dos exportadores (e oprimidos?) tenta incessantemente manter um cambio desvalorizado. Verdade que o “milagre” da desvalorização tem vários padroeiros e não apenas o santo governamenteiro como pensa Guido Mantega, devemos lembrar que um cenário de incerteza na Europa leva à fuga de capitais do país.

Fonte: Trading Economics

Analisando toda a situação, se o leitor teve paciência de chegar ao fim deste artigo, vimos que um mundo crescendo menos, um país sem capacidade ociosa e o preço das commodities menores forçaram o governo a ser mais ativo em suas políticas econômicas. Como resultado, temos: insistência em juros baixos, câmbio depreciado e busca por um choque de produtividade e proteção à indústria nacional. 

Como choque de produtividade e proteção a indústria nacional vemos: desoneração da folha de pagamento, redução do IPI para automóveis, taxação de alguns bens importados como vinhos etc. Ou seja, é clara a preocupação do governo com a indústria do país levando-o a tomar medidas que antes não eram necessárias pelos motivos já citados. Portanto, não é simplesmente que os jogadores são os mesmos e as cartas são outras, nem mesmo esquizofrenia brasileira, a grande questão é que o jogo também mudou!

Post em Parceria com Leonardo de Siqueira Lima que é graduando em Economia pela EESP-FGV e Miguel Bandeira que  é graduando em Economia pela EESP, Consultor e Conselheiro da CJE-FGV.

Por Samy Dana às 17h51

12/06/2012

A Síndrome do Estudante, a dificuldade nas dietas ou porque é tão difícil poupar

Apesar de a sabedoria popular pregar que não se deixe para amanhã o que se pode fazer hoje, as pessoas são mais fiéis à linha do “antes tarde do que nunca”. Procrastinar, de acordo com o dicionário Houaiss, significa "transferir para outro dia ou deixar para depois; adiar, delongar, postergar, protrair". Uma das modalidades mais comuns é a procrastinação universitária – também conhecida por “Síndrome do Estudante” –, popular, inclusive, na querida FGV (onde leciono há anos), cujos alunos têm por costume acumular tarefas, trabalhos e estudos para as vésperas dos prazos e das provas, até que o desespero e o pânico do último minuto os motivem a terminar seus deveres.

De forma parecida, é comum para as pessoas que vão começar uma dieta adiar o início do regime para amanhã, ou afirmar o famoso “começo na segunda-feira”.

Nós, economistas, tentamos entender quais os fatores que motivam esse comportamento e suas consequências para a economia. Será que ocorre algo em nossa mente que explique o porquê de estudantes preferirem realizar suas obrigações na véspera da entrega, em vez de realizá-las com uma semana de antecedência, já que o tempo despendido é o mesmo? Igualmente, por que é mais fácil começar uma dieta na segunda-feira do que começá-la hoje? A ideia não é entrar em forma o mais rápido possível?

O fato é que o ser humano, quando avalia alternativas com horizontes de tempo diferentes, acaba tendo uma visão míope, ou seja, dá um peso maior para o futuro próximo do que para o futuro mais distante. Isso significa que tanto os efeitos positivos como os negativos são percebidos de forma progressivamente mais acentuada conforme se aproximam do presente, e vice-versa. Contudo, pensando analiticamente, será que esse comportamento humano é racional?

Em situações de tomada de escolha, nosso cérebro traça um duelo entre a satisfação presente e o futuro. Estudos mostram que esse embate é bastante desonesto, uma vez que o eu-presente é muito mais forte e mais nítido que o eu-futuro. Como consequência, o eu-presente acaba ganhando a maioria das disputas:  escolhe para si as decisões de lazer e entretenimento e deixa para o coitado do eu-futuro as decisões de trabalho e esforço. Isso explica, por exemplo, porque apesar de a pessoa ter decidido entrar em regime, ela resolve comer um chocolate no dia (eu-presente) e deixar para começar a dieta na segunda-feira (eu-futuro).

Fazendo um paralelo com o mundo financeiro, já que estamos falando de economia (apesar de comportamental), procrastinação está bastante relacionado a gastar o dinheiro no presente, no sentido de deixar para amanhã a poupança que se faria hoje. O eu-presente quer obter satisfação imediata por meio de tudo que o dinheiro pode comprar, ao passo que o eu-futuro prefere poupar esse dinheiro, vê-lo render juros e aproveitá-lo no futuro, quando for comprar uma casa, um carro, realizar um sonho de consumo, ou para quando estiver aposentado. 

Assim como o estudante procrastinador, que prefere dormir por toda a manhã no domingo, assistir ao jogo de tarde, ir a noitadas e festinhas com divertimentos alcoólicos e deixar para terminar seus afazeres de madrugada, populações menos educadas tendem a fazer um pior uso de crédito fácil, endividando-se com frequência e, por conseguinte, gerando crises de mercado. Como se percebe, o instinto humano tende a satisfazer seus impulsos presentes, gastando tudo, mesmo que isso implique em dívidas irresponsáveis – ou seja, sem a devida preocupação com o próprio bem-estar no futuro.

A principal semelhança, entretanto, entre procrastinar e gastar dinheiro está no remédio para ambos os hábitos: a autodisciplina. É, inclusive, o único remédio conhecido até agora. O estudante altamente disciplinado, que estuda logo após a matéria ter sido dada e termina seus trabalhos com uma semana de antecedência (estudante fictício, diga-se de passagem), irá terminar o curso com muito mais facilidade que os demais (e dormindo muito melhor). Além disso, possui chances muito maiores de ser um adulto financeiramente responsável, com um plano de poupança sólido, que permita aposentar-se confortavelmente aos 60 anos. Analogamente, a pessoa acostumada a dizer não às tentações do açúcar possui uma maior propensão a manter uma alimentação saudável e balanceada, sem sofrer por isso como sofrem os demais, e um povo acostumado a poupar, capaz de combater esse instinto consumista, provavelmente será pouco endividado e bastante resistente a períodos recessivos da economia.

A autodisciplina é a única que pode ajudar o eu-futuro em seu duelo contra o eu-presente. Aprender a renunciar aos prazeres imediatos e ao epicurismo momentâneo é uma habilidade que só pode ser obtida com o exercício diário. É preciso ter em mente que uma renúncia agora pode aumentar muito o prazer no decorrer da vida, seja através de uma saúde melhor, menos estresse pré-prova, uma aposentadoria mais confortável ou uma economia isenta de crises.

Post em Parceria com Otávio Oliveira que é graduando em Administração pela EAESP-FGV.

Por Samy Dana às 08h00

04/06/2012

Calculadora Investimentos

http://economia.uol.com.br/ultimas-noticias/redacao/2012/05/30/com-queda-de-juros-poupanca-de-r-20-mil-perde-r-57-num-ano-calcule.jhtm

Link da calculadora do UOL, em parceria Miguel Bandeira 

Por Samy Dana às 02h31